Vaidade depois dos 50: por que ainda incomoda tanto
- Adalberto Arilha
- 6 de abr.
- 3 min de leitura
Vaidade depois dos 50: por que ainda incomoda tanto
Chega uma hora em que o mundo começa a ensinar à mulher que o melhor seria desaparecer com elegância. É justamente aí que perfume, batom, cabelo arrumado e gosto de si deixam de ser detalhe e começam a parecer ameaça.
O tempo não chega fazendo escândalo.
Chega manso. Troca os móveis de lugar, mexe na luz, altera o espelho e, quando a mulher percebe, já tem gente demais querendo decidir o que ela pode ou não pode ser dali para a frente.
Ninguém diz assim, na lata: “minha senhora, trate de desaparecer com dignidade”.
Seria brutal demais.
A brutalidade, quando quer ser aceita, aprende a falar baixo.
Então ela vem em tom de conselho.
Agora pega leve.
Agora não exagera.
Agora vê se não fica ridícula.
Agora aceita a sua idade.
Pronto.
Está montado o curral.
E curral, como todo mundo sabe, não precisa de muro alto. Basta que a cerca entre na cabeça do bicho.
O apagamento sempre chega bem-educado
Com muita mulher acontece isso.
Ela vai aprendendo que, depois de certa altura, gostar de se arrumar pega mal. Gostar de perfume pega mal. Gostar de se achar bonita pega mal. Gostar de parecer viva pega mal. E a sensualidade, então, nem se fala.
Depois de certa idade, parece que a mulher só pode escolher entre duas desgraças: ou desaparece com compostura, ou vira suspeita de ridículo.
É um truque antigo. E funciona.
Porque muita mulher acaba confundindo abandono de si com maturidade. Desleixo com humildade. Apagamento com sabedoria.
Bonitos nomes.
Mau negócio.
O problema nunca foi a vaidade
Eu sei que a palavra vaidade anda mal falada. Ficou com fama de frivolidade, espelho, frescura. Mas isso é preguiça de pensar.
Porque há horas em que vaidade não tem nada de vã.
É só uma mulher dizendo para si mesma: ainda não desisti.
Passar um creme. Cuidar do cabelo. Fazer as unhas. Escolher uma roupa com gosto. Gostar do próprio cheiro.
Tudo isso parece pequeno para quem olha de fora.
Não é.
Em certos momentos da vida, isso é o contrário da desistência.
O que incomoda não é a idade. É o gosto de si
Talvez por isso incomode tanto.
O mundo até tolera uma mulher madura. O que ele tolera menos bem é uma mulher madura com gosto de si.
Uma mulher que ainda se enfeita.
Que ainda se perfuma.
Que ainda se quer bem.
Que ainda se acha interessante.
Que ainda não entregou a própria cor.
Isso estraga a narrativa.
Porque a narrativa é outra. A narrativa manda a mulher envelhecer em tons pastéis, com pouca presença, pouco desejo e nenhuma ousadia. Uma existência sem escândalo, sem brilho e, de preferência, sem muita graça.
Pois eu não compro essa miséria.
Há uma diferença entre se libertar do espelho e ser empurrada para fora dele
Claro que existe exagero. Claro que existe prisão estética. Claro que existe mulher adoecendo para obedecer à tirania da aparência.
Mas esse é outro assunto.
Não vamos misturar as gaiolas.
Uma coisa é viver escrava do espelho. Outra, muito diferente, é ser empurrada para fora dele.
E o que muita mulher ouve, depois dos 50, não é um convite à liberdade. É um convite ao apagamento.
Desistir do encanto.
Desistir do mimo.
Desistir da graça.
Desistir daquela parte íntima e civilizada da vida que ainda gosta de beleza.
Algumas chamam de vaidade. Eu chamaria de defesa pessoal
Por isso, não tenho medo da palavra.
Há momentos em que um pouco de vaidade não é frescura, nem futilidade, nem desvio de caráter.
É defesa pessoal.
Defesa contra o cinza.
Defesa contra o apagamento.
Defesa contra a ideia sinistra de que, depois de certa idade, basta estar viva.
Não basta.
Vida sem cor, sem graça e sem gosto de si pode até durar muito.
Mas isso já é outra coisa.
E certamente não é a melhor promessa da longevidade.
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